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Os “novos” brasileiros: de exilados políticos a profissionais qualificados.

O número de brasileiros com autorização de residência a viver em Portugal aumentou 43% de 2018 para 2019, revelam dados provisórios do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) fornecidos ao PÚBLICO. Em números totais, os brasileiros chegam agora quase aos 151 mil, o maior número de sempre. Em 2018 eram 105.423. A subida acompanha o crescimento que se verificou em 2019 do número total de imigrantes em Portugal, que ultrapassou pela primeira vez a barreira do meio milhão: são 580 mil. Os brasileiros representam, assim, um quarto do total. Já em 2018 se verificara uma subida de brasileiros, depois de dois anos de queda, em 2015 e 2016. Em 2019 foram emitidos 48.627 novos títulos de residência para imigrantes desta nacionalidade, mais 20.417 do que no ano anterior, o que representa mais de um terço do total das novas autorizações concedidas a estrangeiros pelo SEF, que chegaram às 135 mil — contra 93 mil em 2018. Os brasileiros, de longe a maior comunidade de estrangeiros em Portugal, têm tido uma presença constante, sobretudo desde os anos 80. Embora tenha abrandado durante alguns anos, o fluxo de imigração brasileira não parou. Ao contrário de outros imigrantes extra comunitários, como os cabo-verdianos, o segundo maior grupo, os brasileiros não precisam de visto de entrada por causa dos acordos entre os dois países.

O fenómeno está longe de ser novo e no aumento de 43% está reflectida uma realidade que vem de há “pelo menos dois anos”, diz a presidente da Casa do Brasil de Lisboa, Cyntia de Paula. Isto porque os processos de autorizações de residência são longos e, portanto, as pessoas só “aparecem” nas estatísticas do SEF mais tarde. A associação que dá apoio aos brasileiros há anos refere que todos os dias tem gente recém-chegada nos seus escritórios. “Essa realidade é diária na associação e nos diferentes projectos.” Quem chega? “Um mix de perÆs”, responde. Mas está a chegar “mais gente mais qualificada”, refere, “licenciados” e muitos com o objectivo de “continuar os estudos”: “Há advogados, engenheiros, médicos, psicólogos, publicitários…” Desde a destituição da Presidente Dilma Roussef em 2016, e da recuperação económica de Portugal, que se tem notado um aumento de brasileiros com perfis diversificados, contextualiza. No início de 2000 a imigração brasileira estava focada no trabalho e tinha perspectiva de retornar ao Brasil, refere Cyntia de Paula. O trabalho exercido nem sempre correspondia às suas qualificações, a maioria trabalhava na restauração, construção civil e outros serviços. Essa vaga para trabalhar nunca desapareceu, mas a ela juntaram-se outros perfis, nota.

Em 2008 e 2009 chegaram muitos estudantes para o ensino superior, um grupo que continuou a vir mesmo em períodos de crise e que neste momento é bastante expressivo. “Somaram-se outros grupos mais qualificados, pequenos empreendedores, aposentados, gente ligada ao activismo e aos direitos humanos que não se sente protegida no Brasil. Os discursos de migração mudaram: não vêm só para ganhar dinheiro, mas para ganhar qualidade de vida.” Muitos abrem empresas que, por sua vez, empregam pessoas, continua. “Notamos que é difícil a entrada no mercado qualificado. Os brasileiros queixam-se diariamente de que não conseguem trabalhar nas suas áreas e têm difculdade com o reconhecimento do seu diploma, mas também que a entidade empregadora reconheça o seu percurso profssional. Isso tem a ver com preconceitos, com a ideia de que o nosso ensino e experiência profssional são inferiores”, analisa.

As famílias Há ainda um fenómeno que se destaca na nova vaga: a chegada de famílias. Duval Fernandes, demógrafo, professor da Pontífce Universidade Católica de Minas Gerais, que está a fazer um projecto de investigação sobre a nova vaga migratória de brasileiros em Portugal, refere que há uma maior presença de famílias que chegam em conjunto. “Temos tentado compreender essa migração mais recente, onde não há um padrão único, e que coloca desafios”, refere, elencando também os aposentados, os empresários que pedem visto gold e os estudantes. “Quando se trata de famílias, falamos de crianças e de jovens que têm de ir à escola e falamos de mulheres num momento reprodutivo.” Nesse aspecto, muda também a questão das remessas, diz, porque as famílias, estando todos os elementos em Portugal, não enviam dinheiro para o Brasil e os aposentados até trazem as suas economias para Portugal. “O grande sonho de construir uma casa no seu país de origem mudou e as pessoas olham para Portugal como uma opção” para ficar a viver. “O projecto dos portugueses que foram para o Brasil talvez esteja a ser repensado pelos brasileiros em Portugal.” Porém, como referiu ao PÚBLICO em Outubro, Carlos Vianna, membro do Conselho das Migrações, e fundador da Casa do Brasil, estes dados ofciais podem estar abaixo das estatísticas. Calcula que haverá 200 mil brasileiros em Portugal, entre imigrantes não regularizados, imigrantes com autorização de residência e brasileiros que obtiveram a nacionalidade portuguesa. “Acredito que haja em Portugal cerca de 40 a 50 mil portugueses de origem brasileira como eu, que já sou português há quase 20 anos. No Brasil há imensos novos portugueses porque não há família com portugueses que não incentive os filhos a ter a nacionalidade. Quem tem avô brasileiro vai pedir a nacionalidade.”

Imigrantes chegam aos 580 mil

O número total de estrangeiros em Portugal nunca foi tão alto, anunciou ontem o ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, durante a audição parlamentar sobre o Orçamento do Estado para 2020. “Os dados preliminares [580 mil residentes estrangeiros] levam a dizer que em 2019, pela primeira vez na nossa história, é ultrapassada a barreira do meio milhão de cidadãos estrangeiros a residir em Portugal”, declarou. Eduardo Cabrita afirmou ainda que as autorizações de residência atribuídas pelo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) subiram de 35 mil em 2015 para 135 mil em 2019. Acrescentou que Portugal tem “uma política de atracção de quadros qualificados e trabalhadores” porque precisa de imigrantes. Segundos dados provisórios de 2019 fornecidos ao PÚBLICO pelo SEF, o Brasil continua no topo das nacionalidades estrangeiras a viver em Portugal (150.864), com quatro vezes mais imigrantes do que a comunidade seguinte, a cabo-verdiana (37.393). Segue-se o Reino Unido, com 34.340 residentes, a Roménia, com 31.056, e a Ucrânia, com 29.671. A novidade no “top cinco” das novas autorizações de residência em 2019 foi a entrada dos indianos, com 6255 concessões


De exilados políticos a profissionais qualificados: os novos perfis

Há “novos” perfis de imigrantes brasileiros que chegam a Portugal, notam os analistas e quem trabalha no terreno. Alguns começaram a aparecer agora, outros antes de 2010. São exilados políticos, activistas políticos e de direitos humanos, estudantes, profissionais qualificados que não encontram trabalho na sua área, por exemplo. Paulo Illes, 44 anos, pertence a este grupo mais recente. Militante na área das migrações e dos direitos humanos desde 2004, foi coordenador da política para imigrantes na Prefeitura de São Paulo, com Fernando Haddad, entre 2013 e 2016. Chegou a Lisboa em Março do ano passado. Filiado no Partido dos Trabalhadores, sentiu-se perseguido quando terminou o mandato. “Com a vitória do [Presidente Jair] Bolsonaro a forma de actuar com violência era maior.” Trabalha para uma organização francesa, a Organização para uma Cidadania Universal, dedicada aos imigrantes, e a vinda para Portugal tornou-se natural: “A rede é muito forte na América Latina e França, mas não tinha inserção na Península Ibérica [algo que estão a fazer agora]. As coisas encaixaram-se.” Além disso, os membros de outra organização que fundou, Rede Sem Fronteiras, querem criar uma sede em Portugal porque é onde há mais brasileiros migrantes. Diz que “é perceptível que há um aumento no fluxo” de brasileiros e consegue identificar a existência de “um grupo de exilados”, do qual faz “parte”. “Há pessoas que vêm para a academia, mas no fundo vêm- -se exilar porque há uma pressão muito forte em relação aos professores progressistas”, diz. Ainda não consegue identificar qual é a dimensão desse grupo, “mas é um número expressivo, acho que são centenas de brasileiros.” Porque escolhem Portugal? “Pelo De exilados políticos a profissionais qualificados: os novos perfis abrir horizontes, direccionar para outra área de Direito.” Diz que se voltasse ao Brasil teria emprego, mas por enquanto está disposta a trabalhar noutra área porque compensa “em relação à qualidade de vida, que inclui segurança, tranquilidade, lazer e outros aspectos que no Brasil estão complicados”. Mas não está disposta a desistir. “Sei que vou conseguir.” Tirar “brasileira” do CV Mab Marques, de 34 anos, está em Portugal desde Agosto de 2017. Original de Salvador, mudou-se para Lisboa para fazer um mestrado em Psicologia Social e das Organizações, no ISCTE. Licenciada na Faculdade de Tecnologia e Ciências em Salvador, está a fnalizar a tese. Procura trabalho desde Junho na área de recursos humanos, onde trabalhou durante mais de cinco anos no Brasil. Percebeu, pelos anúncios, que é uma área onde há vagas publicadas constantemente. “Com a minha experiência, já teria habilitações para trabalhar em recursos humanos em Portugal. Tenho enviado currículos e não tenho sido chamada, nem sequer para entrevistas. Em Dezembro tirei do CV informações como o facto de ser brasileira, porque a minha impressão é que isso estava-me prejudicando. Fiz uma candidatura na segunda-feira e [quarta-feira] fui a uma entrevista para recursos humanos numa imobiliária”. Não estava à espera que fosse tão difícil arranjar emprego, até porque a taxa de desemprego em Portugal tem vindo a baixar. “Na faculdade não senti apoio para me ajudarem a fazer estágio curricular, tive que pedir ajuda aos professores.” De uma coisa tem a certeza: “Não quero voltar ao Brasil.” Por isso, tem “procurado trabalhos em lojas ou telemarketing”. Se for preciso, trabalha noutra área.“É difícil, mas faz parte”, refere. Joana Gorjão Henriques Total de residentes em 2019 Nacionalidades mais representativas Novos residentes em 2019 Nacionalidades mais representativas Imigrantes com autorização de residência Fontes: Relatório de Imigração, Fronteiras e Asilo 2018; Serviço de Estrangeiros e Fronteiras PÚBLICO Evolução da população estrangeira residente 580.000 480.300 0 200.000 300.000 400.000 500.000 2019 2018 1980 1990 2000 2010 50.750 Nota: dados provisórios, não consolidados Ucrânia Roménia R. Unido Cabo Verde Brasil Nepal Índia R. Unido Itália Brasil 48.627 8349 7867 6255 4986 150.864 37.393 34.340 31.056 29.671 Brasileiros residentes em Portugal Fonte: Serviço de Estrangeiros e Fronteiras 2015 2016 2017 2018 2019 82.590 81.251 85.426 105.423 150.864 Brasileiros representam um quarto dos imigrantes a residir no país idioma, pela proximidade cultural, pela documentação”. Este é um grupo que tem conseguido integrar-se e “inclusive participar e actuar na vida política de Portugal”, analisa.

Do Direito para uma loja

Com outro perfil há Mayagara Goerg, de 27 anos, licenciada em Direito pela Pontífice Universidade Católica de Rio Grande do Sul, original de Porto Alegre, que quis fazer mestrado em Direito na Universidade de Coimbra. “Quando cheguei a Coimbra, parecia que tinha mudado de um estado para outro no Brasil. Sentia-me bem acolhida. Comecei a apaixonar-me pelo país.” Em Julho de 2016 decidiu que iria ficar e começou a procurar emprego na área jurídica, enviou currículos para vários escritórios, mas não recebeu resposta. Acabou por arranjar emprego numa loja num centro comercial onde ficou durante nove meses e aprendeu o quanto é duro ter horário e folgas rotativas e comer a refeição “num banquinho num canto do armazém”. A tese acabou por ser adiada. Ainda se mudou para o Algarve, onde ficou como gerente de uma loja durante um ano, regressou a Coimbra em Abril do ano passado para finalmente terminar a tese. Teve trabalhos em part-time e fez limpezas em casas particulares. Está prestes a mudar-se para Lisboa para ser gerente de loja numa marca de jóias e malas. Desistir de encontrar um emprego na área onde se formou? “Jamais”, afirma. “Bem sei o esforço que foi pagar a minha licenciatura. Esta mudança [para Lisboa] pode abrir horizontes, direccionar para outra área de Direito.” Diz que se voltasse ao Brasil teria emprego, mas por enquanto está disposta a trabalhar noutra área porque compensa “em relação à qualidade de vida, que inclui segurança, tranquilidade, lazer e outros aspectos que no Brasil estão complicados”. Mas não está disposta a desistir. “Sei que vou conseguir.”

Tirar “brasileira” do CV

Mab Marques, de 34 anos, está em Portugal desde Agosto de 2017. Original de Salvador, mudou-se para Lisboa para fazer um mestrado em Psicologia Social e das Organizações, no ISCTE. Licenciada na Faculdade de Tecnologia e Ciências em Salvador, está a finalizar a tese. Procura trabalho desde Junho na área de recursos humanos, onde trabalhou durante mais de cinco anos no Brasil. Percebeu, pelos anúncios, que é uma área onde há vagas publicadas constantemente. “Com a minha experiência, já teria habilitações para trabalhar em recursos humanos em Portugal. Tenho enviado currículos e não tenho sido chamada, nem sequer para entrevistas. Em Dezembro tirei do CV informações como o facto de ser brasileira, porque a minha impressão é que isso estava-me prejudicando. Fiz uma candidatura na segunda-feira e [quarta-feira] fui a uma entrevista para recursos humanos numa imobiliária”. Não estava à espera que fosse tão difícil arranjar emprego, até porque a taxa de desemprego em Portugal tem vindo a baixar. “Na faculdade não senti apoio para me ajudarem a fazer estágio curricular, tive que pedir ajuda aos professores.” De uma coisa tem a certeza: “Não quero voltar ao Brasil.” Por isso, tem “procurado trabalhos em lojas ou telemarketing”. Se for preciso, trabalha noutra área.“É difícil, mas faz parte”, refere.

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